sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Nocicepção em Megalobulimus oblongus


Em humanos, de acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) “a dor é caracterizada como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tecidual real ou potencial, ou descrita em termos de tal dano”. Entretanto, a dor apesar de remeter sensação de aversão não tem só aspectos negativos, pois ao pensar no viés evolutivo, a dor relaciona-se a proteção e sobrevivência. A dor pode ainda ser influenciada por diversos fatores subjetivos, como experiências anteriores, estado emocional, personalidade, entre outros.
A dor pode ser percebida inicialmente pela detecção de estímulos danosos, a partir de nociceptores, que são receptores sensoriais, sendo estes terminações nervosas livres responsáveis pela detecção de estímulos térmicos, químicos e mecânicos intensos. As informações detectadas pelos nciceptores são conduzidas ao Sistema Nervoso Central (SNC) por meio das vias espinotalâmicas, que dividem-se em dois tratos principais, o trato neoespinotalâmico e o trato paleoespinotalâmico, que chegam ao tálamo e projetam-se para o córtex somatossensorial através dos núcleos lateral e medial, onde ocorre de fato a interpretação da informação nociceptiva. As vias e os mecanismos que envolvem os sistemas nervosos são ativados por aferências nociceptivas somáticas e viscerais (PURVES, 2010; BASBAUM, 2000).

 



As fibras de condução para o SNC são do tipo Aσ e C; as fibras de tipo Aσ são mielinizadas de condução rápida, já as do tipo C são polimodais, amielínicas e de condução lenta. A dor pode ser ainda resultado da liberação de substâncias químicas como “cininas”, histamina, serotonina, acetilcolina, prostaglandinas, entre outras, relacionadas à resposta inflamatória em resposta ao dano tecidual. A modulação inibitória da nocicepção é denominada analgesia e pode ser realizada por mecanismos endógenos como como os opióides e canabinóides, que são liberados naturalmente em situações de medo e estresse, a partir da estimulação da Substância Cinzenta Periaquedutal (PAG) (PENHA, 2001; JULIUS, 2001).
A espécie Megalobulimus oblongus pertence ao Filo Mollusca e a classe Gastropoda, encontrado no sul do Brasil, Paraguai e Argentina, sendo considerada terrestre, hermafrodita e com reprodução facilitada. O M. oblongus pertence ainda à subclasse Pulmonata, em que houve a transformação da cavidade do manto em um pulmão. Essa espécie geralmente habita em locais úmidos, protegidos e escuros e são de hábitos noturnos.  O SNC do M. oblongus é simplificado, sendo composto por onze gânglios, dos quais nove fazem parte do anel ganglionar principal (gânglios cerebrais, pleurais, parietais e visceral) que circunda o esôfago. Esses gânglios encontram-se dispostos em pares, com exceção do visceral (FRAGA, 2002).

Fonte: Fraga (2002).


Em um estudo realizado por Penha (2001), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi separado três grupos de caracóis utilizando um estímulo térmico aversivo. O primeiro grupo (controle) manteve-se a temperatura ambiente; o segundo grupo foi mantido em uma placa a 45°C, e o terceiro foi submetido a 50°C. Os resultados encontrados foram semelhantes aos já descritos pela literatura, com a presença de movimentos aversivos em que o animal busca fugir da superfície aquecida. Há também a notável presença do reflexo de retirada observado no contato da rádula com a superfície e liberação excessiva de muco. Houve também a administração de morfina durante o experimento objetivando aumentar a latência em relação ao grupo controle e o grupo tratado com solução salina. E apesar da latência ter se alterado as respostas motoras referentes à estimulação se mantiveram, sendo observado a retração corporal do animal (PENHA, 2001; FRANKLIN, ABBOTT, 1989). O gráfico abaixo retrata a estimulação térmica realizada nos grupos do estudo e sua respectiva latência.

 
Fonte: Penha (2001).

Se comparado o SNC M. oblongus com de um ser humano há uma simplicidade entre os mecanismos e processos envolvidos na percepção, interpretação e resposta aos estímulos nocivos, entretanto pode-se observar comportamento capaz de identificar uma resposta nociceptiva.

Escrito por Letícia Rodrigues Pinheiro

Referências

IASP (International Association for the Study of Pain). IASP Statement on Opioids. Disponível em: https://www.iasp-pain.org/Advocacy/Content.aspx?ItemNumber=7194. Acesso em: 12 out. 2019.

BASBAUM, A.I.; JESSELL, T. The Perception of Pain. In: KANDEL, E. R.; SCHWARTZ, J. H. Principles of Neural Science. Elsevier: New York, 2000.
FRAGA, L. S. de. Efeito da anoxia sobre o metabolismo de carboidratos no sistema nervoso central do caracol Megalobulimus oblongos (Gastropoda: Pulmonata). 2002.
FRANKLIN, K. B. J; ABBOTT, F. V., Techniques for assessing the effects of drugs nociceptive responses, in Boulton. Neuromethods Psycopharmacology, Human Press: New Jersey, 1989.
JULIUS, D.; BASBAUM, A.I. Molecular mechanisms of nociception. Nature, v. 413, n. 6852, p. 203, 2001.
PENHA, M. A. P. Um modelo de comportamento aversivo térmico em Megalobulimus oblongus e a ação de fármacos nos sistemas opióide e serotoninérgico envolvidos na nocicepção. 2001.
PURVES, D. et al. Neurociências. 4. ed.  Artmed Editora, 2010.